Depois de já termos experimentado algumas unidades da Omoda, mas também da Jaecco — o LusoMotores esgteve na passada semana no Autódromo Internacional do Algarve para um conhecimento mais detalhado do Omoda 9 —, rapidamente surgiu uma questão em redor destas duas marcas: como é que convivem ambas na discussão por clientes que, pelo menos aparentemente, procuram automóveis semelhantes? Haverá canibalização entre ambas as marcas?
A pergunta surge naturalmente quando se olha para a oferta da Omoda e da Jaecoo em Portugal: se partilham plataformas, motores e até concessionários, porque é que existem como duas marcas distintas? A resposta surge menos na engenharia e mais na estratégia, senão vejamos: Ambas pertencem ao gigante chinês Chery, que as lançou globalmente em 2023 como um par complementar, e chegaram ao mercado português no final de 2025 através do Grupo JAP. E a ideia é simples: em vez de tentar vender o mesmo carro a públicos diferentes, a Chery criou duas personalidades distintas que partilham a mesma base técnica, mas falam com clientes que procuram coisas distintas.
A mesma base,
dois temperamentos
Se olharmos para os modelos mais próximos, como o Omoda 5 e o Jaecoo 5, as semelhanças são evidentes. Partilham a mesma plataforma, o mesmo sistema híbrido de 224 cavalos e até os mesmos números quando olhamos para as capacidades de aceleração. A diferença está na forma como cada um se apresenta. O Omoda posiciona-se como uma marca mais urbana, com um design que privilegia linhas fluídas e uma certa elegância desportiva com um pouco mais de requinte. Já o Jaecoo, por outro lado, assume uma postura mais robusta e aventureira, com uma linguagem estética que remete para o universo dos SUV tradicionais, mais quadrados e imponentes.


Esta distinção entre os produtos de uma e outra marca não é apenas cosmética, traduzindo-se antes em decisões práticas que afectam o dia-a-dia de quem conduz. O Jaecoo 5, por exemplo, oferece mais espaço para a cabeça dos passageiros que viajam no banco traseiro, permitindo ainda uma mala com 410 litros, contra os 372 litros oferecidos pelo Omoda 5. Neste, um perfil mais inclinado na traseira rouba algum volume, resultando em 38 litros de diferença que podem parecer irrelevantes no papel, mas que se notam quando se tenta arrumar um carrinho de bebé ou as malas de uma semana de férias.
Onde cada um se destaca
A escolha entre um e outro depende menos do que está debaixo do capô e mais do que se valoriza no dia-a-dia. O Omoda 5 tende a compensar com um pacote de equipamento mais generoso nas versões de entrada. A versão Luxury, por exemplo, traz faróis full-LED, ecrã multimédia de 12,3 polegadas, câmara de 360 graus e tejadilho elétrico de série. Já o Jaecoo 5 Comfort, mais barato, chega com faróis de halógeneo e um ecrã de apenas 9 polegadas. Para quem dá importância à tecnologia e ao conforto desde o primeiro nível de equipamento, o Omoda surge assim a levar alguma vantagem no confronto direto.

O Jaecoo responde com argumentos diferentes. O seu teto panorâmico é maior nas versões de topo, e o consumo é ligeiramente mais baixo em ambiente urbano — 6,4 litros a cada 100 km contra 6,6 l/100km do Omoda, no caso do sistema híbrido. São diferenças marginais, é certo, mas que fazem sentido para quem percorre muitos quilómetros em cidade e valoriza uma posição de condução mais alta e uma sensação de solidez que o design mais quadrado sugere.
A estratégia para evitar
que se canibalizem
A grande questão é como é que duas marcas que partilham tanto conseguem coexistir sem que uma roube clientes à outra. A resposta que a Chery tem dado é que prefere perder uma venda dentro de casa do que perdê-la para um concorrente externo. Em vez de tentar evitar sobreposição, a estratégia passa por criar produtos suficientemente distintos para que cada um atraia um perfil diferente, mesmo que os preços sejam próximos.
Em Portugal, o Jaecoo 5 arranca nos 33.900 euros, enquanto o Omoda 5 começa nos 34.900. É uma diferença de mil euros que, na prática, posiciona o Jaecoo como a porta de entrada da dupla e o Omoda como uma opção ligeiramente mais sofisticada, requintada e tecnológica.
Há também uma dimensão de rede que ajuda a consolidar esta abordagem. Ambos os modelos são vendidos nos mesmos concessionários, sob a designação Omoda & Jaecoo, o que significa que quem entra para ver um acaba inevitavelmente por ver o outro. A ideia é que a decisão final seja tomada dentro da mesma casa, seja qual for o vencedor.




O que isto significa
para quem compra
Para o consumidor português, a existência destas duas marcas sob o mesmo chapéu acaba por ser uma vantagem. Em vez de uma única proposta rígida, há duas interpretações do mesmo conceito base, cada uma com os seus compromissos. Quem valoriza equipamento, tecnologia e um visual mais elegante encontra no Omoda uma proposta coerente. Quem prefere espaço, praticidade e uma estética mais robusta, com um consumo urbano ligeiramente melhor, tem no Jaecoo uma alternativa que não obriga a abdicar da mesma base mecânica.
A rede do Grupo JAP tem vindo a crescer desde a chegada das marcas, com 15 concessões activas no continente e ilhas, e planos para continuar a expandir . Isso significa que, independentemente da escolha, o suporte pós-venda e a disponibilidade de peças tendem a consolidar-se com o tempo. A dupla Omoda & Jaecoo não é, portanto, uma sobreposição confusa. É uma estratégia deliberada que aposta na especialização dentro de uma mesma casa, deixando ao cliente a decisão sobre qual das duas personalidades faz mais sentido para a sua vida.










