O ensaio que hoje trazemos ao LusoMotores para que acompanhe a nossa análise resulta do contacto com uma proposta de uma nova marca chinesa de veículos elétricos, a Forthing, que nos permitiu conhecer melhor o S7, modelo que o construtor apresenta como “o seu novo luxo elétrico”. Após vários dias a bordo do Forthing S7, numa rotina que misturou trânsito citadino, curvas em estrada nacional e extensos trechos de autoestrada, é possível traçar um retrato claro do que esta nova proposta elétrica vale, afinal, e a impressão deixada foi positiva. Ainda assim, num tudo será glamour.
Importado para Portugal pelo Grupo Auto Industrial, o Forthing S7, proposto por esta marca chinesa inserida no Grupo Dongfeng, chega com a ambição de se posicionar no segmento dos sedãs elétricos de luxo e alta conectividade, mas a verdade é que a sua origem chinesa ainda levanta algumas reservas entre os condutores europeus, e não sendo uma marca do pelotão da frente em termos de tempo de presença no mercado, precisa agora de se afirmar ao lado de outros propostas do mercado já implementadas e bem conhecidas. O ensaio procurou precisamente testar se o discurso comercial corresponde à realidade da prestação sobre o asfalto, isto relativamente a um modelo que vira cabeças à sua passagem, pelas suas linhas atraentes, mas também, há que perceber, pela curiosidade pelo desconhecido.




Comportamento suave,
mas sem rasgo desportivo
O primeiro contacto com o Forthing S7 permitiu uma ideia de luxo e requinte mas também alguma fragilidade, como aquele peça de decoração de cristal cuja beleza é inquestionável mas que temos sempre medo de partir ao primeiro toque. Depois, porém, com os primeiros quilómetros, percorridos, verificamos que existe capacidade de resposta e fiabilidade num modelo em que o conforto e o luxo andam de mãos dadas.
Em cidade, o Forthing S7 revela-se um companheiro silencioso e ágil. A direção assistida é muito leve — quase demasiado para quem gosta de sentir a estrada — mas facilita as manobras e o estacionamento. A aceleração inicial é pronta e linear, como seria de esperar num elétrico, com o binário disponível desde os primeiros metros. Contudo, em estrada nacional, quando se exige um pouco mais de vivacidade em retomas ou em saídas de curva, o S7 mostra alguma apatia.
O motor elétrico de 160 kW (218 cv) cumpre, mas sem rasgo desportivo. Já em autoestrada, a estabilidade é boa, mas o isolamento acústico poderia ser melhor: à beira dos legais 120 km/h começam a ouvir-se ruídos aerodinâmicos que não condizem com a promessa de requinte.




Consumos, autonomia
e carregamento: as contas
A bateria de 56,8 kWh (capacidade útil) permite uma autonomia homologada em ciclo WLTP de 420 km, isto de um modelo que o construtor reclama para si a “autonomia urbana de 581 km”. Na prática, em cidade ficámos convencidos que não chegaríamos a esse valor, sendo que na utilização mista realizada, registámos médias de 18,2 kWh/100 km, o que se traduz numa autonomia real próxima dos 380 km. Em autoestrada a velocidades legais, o consumo sobe para os 21 kWh/100 km, baixando a autonomia para cerca de 280 km.
O carregamento em corrente contínua atinge uma potência máxima de 100 kW, permitindo recuperar de 10% a 80% em aproximadamente 35 minutos – um valor aceitável, mas já ultrapassado por rivais mais recentes. Em corrente alternada (11 kW), uma carga completa demora cerca de seis horas.




Interior e materiais:
o verdadeiro trunfo
É no habitáculo que o Forthing S7 mais impressiona. Os bancos, revestidos a pele sintética perfurada com costuras contrastantes, são macios e oferecem aquecimento e ventilação. O lugar traseiro é generoso em distância para as pernas, fruto dos 2920 mm de distância entre eixos, e o tejadilho panorâmico em vidro amplia a sensação de amplitude.
Os materiais utilizados – plásticos macios ao toque, alumínio escovado e aplicações em imitação de madeira – denotam cuidado, ainda que alguns ajustes nos encaixes deixem perceber que não estamos perante um construtor germânico. A conectividade é assegurada por um ecrã central de 15,6 polegadas com sistema operativo próprio (Android Automotive), que responde rapidamente, mas cuja navegação por sub-menus se revela, por vezes, confusa. Há ainda um ecrã de instrumentos digital de 10,25 polegadas.




Particularidades
e concorrência
Sendo uma marca nova no nosso país, a Forthing tenta destacar-se pela relação equipamento/preço. O S7 vem de série equipado com câmaras 360°, controlo de velocidade cruzeiro adaptativo, assistência de manutenção na faixa de rodagem, carregamento por indução para smartphones e sistema de som com oito altifalantes.
Face a concorrentes diretos como o Tesla Model 3 (mais eficiente e com rede de Superchargers), o MG4 (mais prático e acessível) ou o BYD Seal (superior em acabamentos e dinâmica), o S7 fica numa zona cinzenta: oferece mais espaço que o Model 3, mas menos autonomia real; é mais luxuoso que o MG4, mas menos divertido de conduzir. O preço, nos 42.000€ (antes de incentivos), coloca-o em linha com os rivais, mas sem um argumento racional decisivo que justifique a aposta aconselhada pela emoção numa marca ainda desconhecida.
Três pontos positivos
- Excelente habitabilidade traseira e conforto dos bancos, a condizer com a imagem de sedan familiar de luxo.
- Boa relação equipamento de série/preço, com destaque para os sistemas de assistência à condução e conectividade.
- Silêncio de rolamento em cidade e boa suavidade de suspensão (McPherson à frente, multi-braços atrás) para o segmento.
Três pontos a melhorar
- Autonomia real aquém da anunciada e consumos elevados em autoestrada face aos concorrentes diretos.
- Isolamento acústico deficiente em velocidade mais elevada em autoestrada, prejudicando a sensação de requinte.
- Atraso na resposta do motor em retomas a média-alta velocidade e direção demasiado desmultiplicada para quem procura precisão.




Ficha Técnica – Forthing S7
| Parâmetro | Valor |
|---|---|
| Motor | Elétrico síncrono de ímanes permanentes |
| Potência máxima | 154 kW (209 cv) |
| Binário máximo | 310 Nm |
| Velocidade máxima (limitada) | 165 km/h |
| Tracção | Traseira |
| Modos de condução | Eco, Confort e Sport |
| Bateria | Fosfato de ferro e lítio |
| Bateria (capacidade útil) | 56,8 kWh (LFP) |
| Autonomia WLTP | 420 km |
| Consumo misto WLTP | 16,8 kWh/100 km |
| Carregamento DC (máx.) | 100 kW – 10% a 80% em 35 min |
| Carregamento AC (máx.) | 11 kW – 0% a 100% em 6h |
| Aceleração 0-100 km/h | 6,8 segundos |
| Velocidade máxima | 160 km/h (limitada) |
| Comprimento / Largura / Altura | 4936 mm / 1910 mm / 1495 mm |
| Distância entre eixos | 2920 mm |
| Volume da bagageira | 398 litros (+ frunk) |
| Peso em ordem de marcha | 1805 kg |
| Pneus | 235/45 R19 |
| Preço base (Portugal) | 39.348€ |

O veredito: positivo mas…
A impressão deixada pelo Forthing S7 é surpreendentemente positiva, nomeadamente se fizermos uma análise racional ao que nos permite, mas ainda assim não isenta de nuances. O modelo acerta em cheio no espaço interior, no conforto dos bancos e na lista de equipamentos, aproximando-se do que se espera de um veículo de luxo acessível. Contudo, as fragilidades ao nível do isolamento acústico, da autonomia real em autoestrada e da resposta dinâmica menos apurada relembram que a Forthing ainda não tem a maturidade dos gigantes do setor.
Para quem valoriza espaço e tecnologia sem se importar de arriscar numa marca emergente, o S7 é uma alternativa credível, e pelo que vimos pode vingar a revelar-se uma aposta ganha, com a vantagem de que o proprietário de um Forthing S7 irá, certamente, destacar-se pela originalidade no estacionamento do seu condomínio. Ainda assim, para quem procura eficiência e prazer de condução, há opções que reclamam para si o estatuto de “mais seguras” no mercado português, nomeadamente pelo peso que já conseguiram entre os consumidores. Ainda assim, o Forthing S7 prova que a partir da China já não chegam apenas construtores para fazer volume, havendo afinal quem pretenda provar a capacidade de redefinir o conceito de “luxo útil”.









