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Nissan Micra EV: O regresso de um vencedor agora em modo elétrico

A sexta geração do Nissan Micra marca o regresso de um dos modelos mais emblemáticos da marca japonesa, agora numa versão exclusivamente elétrica que mostrou ter todos os condimentos para conquistar os condutores europeus. Depois de vários dias ao volante em ensaio, pudemos traçar para o LusoMotores uma ideia mais detalhada sobre esta proposta nipónica, entre o desconforto de uma autonomia mais curta e o lado positivo de uma agradável agilidade urbana, juntos num modelo que chega num momento decisivo para a eletrificação do parque automóvel português.

O novo Micra EV assenta na plataforma AmpR Small, desenvolvida pela Aliança Renault-Nissan-Mitsubishi, a mesma base técnica que serve o Renault 5 E-Tech. Esta partilha de engenharia resulta num modelo que, apesar de ter personalidade própria, revela parentesco próximo com o primo gaulês — o que não é necessariamente mau, dado o sucesso que o R5 tem granjeado. A plataforma, aliás, também conhecida como CMF-BEV, garante ao Micra as suas características dinâmicas, como a suspensão traseira multilink, o centro de gravidade baixo e o comportamento ágil.

Curiosamente, a propósito de plataformas, e ainda dentro da Aliança, outro citadino, o novo Renault Twingo E-Tech, utiliza esta mesma plataforma, mas com uma variante mais curta, sendo a versão usada pelo Micra a base “full-size” da AmpR Small para o segmento B, enquanto o Twingo assenta numa versão encurtada e com uma configuração mais económica, reflectindo a sua filosofia de preço mais baixo.

Contacto visual garante
a primeira impressão positiva

O primeiro contacto com o Nissan Micra EV é inevitavelmente pautado pela sua presença visual à qual não somos de todo indiferentes. Desenhado no estúdio Nissan Design Europe em Londres, o modelo apresenta linhas afirmativas, quase audaciosas, com uma dianteira que ostenta faróis LED com uma assinatura luminosa distinta — os famosos olhos que “piscam” num pequeno espetáculo de boas-vindas quando desbloqueamos o veículo.

Já a carroçaria exibe um detalhe curioso: uma ondulação nas portas que os designers apelidam de “colher de gelado”, uma referência lúdica que confirma a aposta da Nissan num design que não se quer sério nem sisudo.

Com 3,97 metros de comprimento e 1,83 metros de largura, o Micra mantém dimensões compactas ideais para o ambiente urbano. As jantes de 18 polegadas são de série em todos os níveis de acabamento, contribuindo para uma postura robusta que contrasta com a imagem mais suave das gerações anteriores.

Habitáculo elegante
com surpresas japonesas

Entrar no habitáculo do Micra EV é depararmo-nos com um ambiente que conjuga a tradição da simplicidade com a modernidade tecnológica, permitindo uma elegância discreta mas bem presente. O condutor é recebido por um volante de três raios de diâmetro generoso e um painel de instrumentos digital de 10,1 polegadas. Ao centro, outro ecrã de 10,1 polegadas, ligeiramente orientado para o condutor, gere o sistema NissanConnect com Google integrado.

Os designers japoneses não resistiram a incluir algumas surpresas pelo habitáculo: uma silhueta do Monte Fuji no compartimento de arrumação central ou um pequeno galo em origami no pára-brisas — uma referência à produção do modelo em França, pormenores que não deixa de o ser mas que surge como pequenos detalhes que revelam o cuidado posto no desenvolvimento do modelo.

É claro que há coisas que não mudam, nomeadamente a quantidade de satélites presos à coluna de direção, ou não estivéssemos nós perante um veículo da Aliança Renault-Nissan-Mitsubishi. Perante a insistência na presença de um apêndice para os controlos do sistema de som a bordo, que poderiam perfeitamente ser colocados no volante propriamente dito, temos ainda o controlo do limpa pára-brisas, mas também a haste que permite gerir o sentido do veículo. É claro que perante tantos controlos, facilmente damos por nós a accionar as escovas mesmo sem chuva, quando a ideia era tão só seleccionar a posição D da caixa para seguir adiante.

Sendo certo que não adianta insistir em querer mudar o mundo nos veículos desta Aliança, resta-nos avançar para outras questões bem mais consensuais e positivas, nomeadamente os materiais a bordo do habitáculo, sem dúvida a evidenciarem uma evolução positiva, com superfícies suaves ao toque e acabamentos que elevam o Micra acima do que seria expectável para um citadino.

A iluminação ambiente ajustável, com 48 cores disponíveis, permite personalizar o ambiente interior consoante o estado de espírito, sendo que condutor e pendura conseguem retirar dos bancos dianteiros um bom apoio, num modelo que acaba por pecar no espaço pouco generoso dos lugares traseiros — um adulto de estatura mais elevada irá sentir alguma limitação no espaço para as pernas. Referência ainda para a capacidade da bagageira, de 326 litros, expansível para 1.106 litros com os bancos rebatidos, um valor competitivo para o segmento desta proposta da Nissan.

Ao volante: agilidade
surpreendente

É na condução que o Nissan Micra EV revela o seu verdadeiro carácter. A versão ensaiada, com a bateria de 52 kWh e motor de 110 kW (150 cv) e 245 Nm de binário, oferece uma resposta pronta e uma agilidade que quase nos faz esquecer que estamos ao volante de um citadino. A aceleração dos 0 aos 100 km/h é cumprida em cerca de 8 segundos, um valor que coloca o Micra num patamar dinâmico interessante para o segmento.

Em cidade, o Micra é soberbo. Tal como já tínhamos verificado no primeiro contacto com este Nissan Micra EV aquando da sua apresentação à Imprensa, pudemos agora confirmar que o raio de viragem é curto, a direção é precisa e leve, e a visibilidade é boa, facilitando as manobras nos apertados cenários urbanos portugueses. Mas é nas estradas nacionais mais sinuosas que o modelo surpreende. A suspensão traseira multilink, uma configuração raramente encontrada em veículos deste segmento, confere uma estabilidade e precisão invulgares. Depois, o centro de gravidade baixo, graças à bateria colocada sob o piso, contribui para um comportamento dinâmico seguro e previsível.

Em autoestrada, o Micra mantém-se estável e bem isolado acusticamente, com pouco ruído de rolamento ou aerodinâmico a penetrar no habitáculo. Para rodarmos de acordo com os limites legais, a velocidade máxima não deverá ultrapassar os 120 km/h, sendo que o modelo não vai além dos 150 km/h, um valor que leva a um consumo maior de energia das baterias e que no uso diário nem sequer deverá ser atingido se quisermos manter todos os pontos da nossa carta de condução.

A gestão da energia:
patilhas e regeneração

O Nissan Micra EV coloca à disposição do condutor quatro modos de condução: Comfort, Sport, Eco e Perso, este último a convidar o condutor a criar um modo personalizado de acordo com os seus gostos individuais. É claro que a opção acaba por ir invariavelmente para o modo Eco, praticamente essencial para conseguir extrair o melhor em termos de consumos, isto porque nos modos mais desportivos a autonomia tende a reduzir-se significativamente.

As patilhas atrás do volante permitem ajustar a regeneração de energia em quatro níveis diferentes. No nível máximo, ativamos a função One Pedal, que permite conduzir utilizando apenas o pedal do acelerador — o veículo desacelera e chega mesmo a imobilizar-se completamente quando levantamos o pé —, revelando-se esta funcionalidade particularmente útil no trânsito urbano pela capacidade que tem de reduzir a fadiga do condutor.

No extremo oposto, o modo “quase livre” permite ao Micra aproveitar os declives sem recorrer à energia armazenada, uma abordagem que pode ser vantajosa em determinados percursos com desníveis acentuados em que se torna possível rodar “à vela” sem grandes consumos de enrgia. É claro que nestas situações a regeneração de energia é menor, mas também o consumo é reduzido.

Consumos e autonomia:
a grande questão

O novo Nissan Micra está disponível com duas opções de bateria: 40 kWh e 52 kWh. A primeira desenvolve 90 kW de potência máxima e 225 Nm de binário, oferece uma autonomia de 317 km e pesa 1400 kg. A segunda sobe para os 110 kW e 245 Nm de binário, alcança uma autonomia de 415 km e fixa o peso nos 1524 kg. No que diz respeito ao carregamento, a versão de 52 kWh suporta carregadores de 100 kW em corrente contínua, permitindo recuperar de 15% a 80% da bateria em apenas 30 minutos. Já a versão de 40 kWh carrega a 80 kW.

Para a unidade testada, com uma autonomia anunciada de 310 quilómetros, a experiência de condução revelou que, em cenários reais com utilização de autoestrada e condução mais viva, a autonomia da variante de 40 kWh dificilmente ultrapassa os 270 quilómetros, com consumos que exigem alguma disciplina na condução para manter a autonomia. Em autoestrada e a velocidades mais elevadas, o consumo tende a aumentar consideravelmente.

O carregamento rápido, até 100 kW em corrente contínua, permite uma recuperação de 15% a 80% em cerca de 30 minutos. Já em corrente alternada, o carregador de bordo suporta até 11 kW, o que se traduz em cerca de 4 horas e 45 minutos para uma carga completa. Ambos os níveis de bateria incluem bomba de calor de série, um equipamento importante para a eficiência em climas mais frios.

Três pontos positivos

1. Design distinto e personalidade própria: O Micra EV não passa despercebido. O design ousado, com os faróis que “piscam” e as cores vibrantes, confere-lhe uma presença urbana marcante.

2. Agilidade e comportamento dinâmico: A suspensão traseira multilink e o centro de gravidade baixo proporcionam uma condução precisa e divertida, rara no segmento dos citadinos.

3. Tecnologia e conectividade: O sistema NissanConnect com Google integrado é intuitivo e eficaz, com navegação que planeia as melhores rotas incluindo as necessárias paragens para carregamentos.

Três pontos a melhorar

1. Autonomia insuficiente para viagens mais longas: A autonomia real fica aquém do esperado, especialmente em autoestrada, limitando a utilidade do veículo para deslocações interurbanas com poucas paragens.

2. Espaço interior traseiro limitado: O espaço para os ocupantes traseiros é apenas o suficiente, penalizando o conforto em viagens com a lotação preenchida nos cinco ocupantes a bordo.

3. Preço elevado para um citadino: Com preços a partir de 27.750 euros, para a versão ensaiada de 40 kWh, e ultrapassando os 33.000 euros para a de 52 kWh, o Micra EV posiciona-se num patamar financeiro ainda assim exigente para os padrões de quem procura um veículo citadino.


Ficha Técnica (versão ensaiada)

CaracterísticaEspecificação
BateriaIões de lítio (LFP) , 40 kWh de capacidade 
Potência do Motor90 kW (122 cv) 
Binário Motor225 Nm 
Autonomia (WLTP)Até 317 km 
Consumo (WLTP)14,2 kWh/100 km 
Aceleração 0-100 km/h9,0 segundos 
Velocidade Máxima150 km/h 
Carregamento Rápido (DC)80 kW (15-80% em aprox. 30 min) 
Carregamento (AC)11 kW 
PesoAprox. 1.452 kg 
Comprimento3.974 mm 
Largura1.830 mm 
Altura1.490 mm 
Distância entre eixos2.541 mm 
Preço27.750 euros

Nota: Esta versão de 40 kWh, com um peso mais reduzido, é ideal para o uso citadino, mas a sua autonomia torna-a menos adequada para viagens longas em autoestrada se não tivermos em conta um planeamento cuidadoso dos carregamentos.


Competência e autonomia pesam
na balança do veredito final

Em jeito de conclusão perante este ensaio, verificámos que o Nissan Micra EV é claramente capaz de se assumir como um citadino competente, com um design arrojado e um comportamento dinâmico que o coloca entre os mais agradáveis de conduzir no segmento. A partilha de plataforma com o Renault 5 E-Tech não é uma desvantagem — antes pelo contrário, garante uma base técnica sólida.

Contudo, a autonomia limitada, especialmente em contexto de autoestrada, e o preço de aquisição elevado podem afastar potenciais compradores que procuram um veículo mais versátil ou mais acessível. O Micra EV é, acima de tudo, um automóvel feito para a cidade e para os percursos diários, onde as suas qualidades se evidenciam e as suas limitações se tornam menos relevantes. Deixa uma impressão agradável, mas exige uma gestão cuidada da energia para que a experiência de utilização se mantenha positiva. O design é atraente, convence, mas deixa claro que os citadinos elétricos precisam de evoluir para responderem às necessidades de um público cada vez mais exigente.

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