A Grande Paris vai ser palco, a partir de 2028, de um dos primeiros testes em larga escala de veículos autónomos em contexto urbano denso na Europa. A Métropole du Grand Paris, a Bolt e a Stellantis candidataram um projeto-piloto à iniciativa ADACities da Comissão Europeia, que pretende levar os robotáxis das páginas de ficção científica para o dia a dia das cidades europeias.
A ideia não é substituir o metro ou o RER, mas tapar os buracos que a rede de transportes pública deixa por preencher. A Grande Paris tem 7,2 milhões de habitantes e uma das redes mais complexas do continente, mas continua a falhar em ligações de primeira e última milha, no acesso a zonas empresariais e em horários fora de ponta. É aí que os veículos sem condutor podem entrar, desde que provem que são seguros e úteis.
O projeto arranca em até cinco municípios do noroeste da Grande Paris. A Stellantis entra com veículos construídos sobre plataformas preparadas para condução autónoma de nível 4 — carros que saem de fábrica com sistemas redundantes de direção e travagem, à espera do software que os vai fazer mover. A Bolt fica responsável por integrar o serviço na sua aplicação e pela operação no terreno. A tecnologia de condução propriamente dita deverá vir da Pony.ai, com o suporte da plataforma NVIDIA Hyperion e do sistema de segurança Halos.
Há, contudo, uma questão que fica por responder: quem controla o quê. A Bolt fica com o acesso ao cliente, a app, os dados de reserva e o despacho das viagens. A Stellantis fornece os veículos. A Pony.ai entra com o cérebro que faz o carro andar sozinho. Para o utilizador, pouco importa a divisão de bastidores. Para o mercado, é uma remodelação profunda: a plataforma que hoje intermedeia táxis e TVDE pode amanhã ser dona da frota que os substitui em certas rotas.
A Métropole du Grand Paris assume o papel de avaliador independente. Vai medir segurança operacional, qualidade do serviço, aceitação dos utilizadores, integração com os transportes públicos e impactos económicos, sociais e ambientais. Os dados agregados vão servir para decidir se o modelo escala para os tais 30 municípios até 2030 — e, mais importante, se serve de referência para outras cidades europeias.
A escolha da ADACities como veículo não é inocente. A Comissão Europeia quer cidades-piloto que demonstrem que os veículos autónomos podem ser um negócio viável e não apenas uma curiosidade tecnológica. Bruxelas fala em frotas de 100 ou mais veículos por cidade até ao final da década. Paris candidata-se a ser uma delas.
Em Portugal, o tema também já saiu da gaveta. Desde julho, existe um regime legal para testar sistemas automáticos de condução em vias públicas, com licenciamento a cargo do IMT, seguro reforçado e supervisão humana obrigatória. As empresas que queiram testar pagam cinco mil euros de taxa e deixam uma caução de 40 mil euros. E em setembro, o país assinou a declaração europeia para criar corredores de teste transfronteiriços, ao lado de mais 21 Estados-membros.
O que se vai passar em Paris a partir de 2028 será, por isso, seguido com atenção por cá. Não porque Portugal vá ter robotáxis na mesma altura — não vai —, mas porque o quadro europeu que está a ser montado agora vai definir as regras do jogo para quem, mais tarde, quiser entrar. E porque a experiência francesa vai dar respostas concretas a perguntas que ainda ninguém sabe responder com certeza: afinal, para que servem mesmo os carros sem condutor numa cidade que já tem metro, autocarro e comboio?









