A escalada do conflito no Médio Oriente continua a fazer-se sentir de forma brutal no bolso dos portugueses. Esta segunda-feira, os preços dos combustíveis registam um novo agravamento, com o gasóleo a aumentar oito cêntimos por litro e a gasolina a tornar-se mais cara em três cêntimos. Estes valores, que já refletem o desconto concedido pelo Governo português no Imposto sobre os Produtos Petrolíferos (ISP), confirmam a tendência de crise energética que se instalou na Europa desde o início dos ataques dos Estados Unidos e de Israel a infraestruturas no Irão.
Apesar das medidas de alívio fiscal implementadas em Portugal, a pressão ascendente dos preços do crude torna os sacrifícios insuficientes para travar a subida na bomba. O contexto é de “choque de oferta”, como explicam os economistas: a instabilidade no Estreito de Ormuz – vital para o transporte de petróleo – estrangula a oferta global e dispara os custos de produção, que são imediatamente refletidos nos bens essenciais.
Consequências para o custo de vida
Este ciclo de aumentos contínuos está a “esvaziar as carteiras” dos portugueses de forma transversal. Para além do óbvio agravamento nas deslocações e no transporte de mercadorias, o aumento do gasóleo é particularmente perigoso porque funciona como motor da economia. Desde o peixe no mercado até aos cereais nos supermercados, tudo o que chega às prateleiras depende de camiões, e o combustível mais caro traduz-se imediatamente em alimentos e bens básicos mais caros.
Há ainda uma ameaça silenciosa no horizonte: a habitação. Muitas famílias portuguesas têm créditos à habitação com taxas variáveis. Se a inflação disparar devido à energia cara, o Banco Central Europeu pode ser forçado a atrasar a descida dos juros ou até a subi-los novamente, o que tornaria as prestações da casa insustentáveis para muitos.
Comparação com a Europa
Portugal não está sozinho nesta tempestade. Por toda a Europa, os preços da energia têm atingido máximos desde o conflito na Ucrânia, com o gás natural a valorizar mais de 70% nas últimas semanas. No entanto, a realidade portuguesa apresenta vulnerabilidades acrescidas. Enquanto países como a Alemanha ou França têm redes de gás e reservas estratégicas mais robustas, Portugal, muito dependente de importações de crude e com uma economia fortemente baseada no transporte rodoviário de mercadorias, sente o choque de forma mais violenta e imediata.
Reconhecendo a dimensão da crise, cinco países da União Europeia – Alemanha, Itália, Espanha, Áustria e Portugal – uniram-se para pedir à Comissão Europeia a criação de um imposto especial sobre os lucros excessivos (windfall tax) das empresas de energia. A ideia é que estas empresas, que estão a lucrar imenso com a guerra, contribuam para financiar alívios fiscais para as famílias, num modelo semelhante ao adotado em 2022. “Aqueles que lucram com as consequências da guerra devem fazer a sua parte para aliviar o fardo do público”, defendem os ministros das Finanças na carta enviada a Bruxelas.
Enquanto a resposta europeia não chega, o Governo português já avisou que estuda medidas adicionais de suporte, embora tenha descartado, por enquanto, a descida do IVA sobre os alimentos ou combustíveis para responder à crise.









