Voltar a conduzir um Volkswagen, mais de oito anos depois do último modelo da marca que tive entre mãos, foi como reencontrar uma voz familiar depois de muito tempo em silêncio. Desta feita, ao volante do Golf GTE PHEV, senti algo que os números da ficha técnica não explicam: uma solidez tranquila, uma postura honesta na estrada, e um certo orgulho discreto que sempre caracterizou a marca alemã em Portugal. Desde a última vez em que tal tinha sido possível, depois de desencontros com a marca (ou com pessoas), mas também após graves problemas de saúde e tantas curvas da vida, tudo contribuiu para permitir agora um olhar mais maduro relativamente a este novo modelo, ainda que sempre com incontornável saudosismo.
Mais do que as análises técnicas e mecânicas, confesso que aquilo que esteve presente durante todo o ensaio foi a memória do velhinho Volkswagen Carocha do meu pai, aquele que nos levava, sem pressa nem estrépito, de Lisboa aos socalcos do Douro, pelas curvas da EN2, nas subidas do Luso e do Buçaco, com as malas amarradas no banco de trás e sobre o tejadilho, e o cheiro a capota envelhecida pelo sol. Na altura, não sabia que aquele arrufado de motor traseiro a refrigerar a ar estava a gravar em mim uma relação afetiva com a marca que o tempo não desgastou.
A nostalgia que a Volkswagen provoca em quem viveu essas experiências não é, contudo, meramente saudosista, ou pelo menos a saudade tem base sólidas: é feita de viagens reais, de férias em família, de subidas íngremes nas tardes de Verão e de confiança cega numa mecânica simples mas rija. O Carocha, com aquele vidro traseiro duplo que certamente não dava a melhor visibilidade para o meu pai, era lento, barulhento e desconfortável para os padrões atuais, mas nunca deixou ninguém na berma da estrada. E essa herança de robustez e acessibilidade — temperada com uma pitada de caráter — é a mesma que ainda hoje se sente no Golf GTE, ainda que vestido de eletrónica e híbrido plug-in.

É curioso como, ao carregar o cabo numa tomada pública em Leiria, que naquela época era a primeira paragem obrigatória na longa viagem até Lamego, me lembrei das paragens do meu pai nas bombas da antiga estrada, onde o Carocha bebia gasolina com moderação e pedia apenas um olhar atento ao mecânico de aldeia.
As raízes que a Volkswagen mantém entre os portugueses são profundas e raramente explicadas nos manuais de marketing. Passámos, os portugueses como também eu lá em casa, pelos modelos míticos — Carocha, Pão de forma, Golf 2 — até aos dias de hoje, e a marca soube crescer connosco, sem perder a identidade. Onde outras marcas se impõem por arrojo tecnológico ou preços agressivos, a Volkswagen continua a ser, para muitos, sinónimo de um carro a sério, aquele que o pai comprava porque sabia que durava, e que o filho, hoje adulto, considera quando pensa em segurança e equilíbrio. O Golf GTE, com a sua dupla alma elétrica e a gasolina, parece personificar essa transição geracional: respeita o passado, mas não tem medo do futuro.
E é por isso que, ao fim de centenas de quilómetros, devolvi o Golf GTE com a sensação de que a Volkswagen continua a ser, em Portugal, mais do que uma marca automóvel. É uma memória viva, uma ponte entre gerações, um ponto de encontro entre quem viveu a aventura simples do Carocha e quem hoje procura eficiência sem perder a alma. O volante mudou, os ecrãs multiplicaram-se, a eletricidade entrou na equação. Mas a forma como o carro nos acolhe, como responde na curva, como nos transmite segurança e até uma certa familiaridade — isso, meus caros, permanece. E a quem perguntar se vale a pena voltar à marca depois de tantos anos, eu que nem sequer tenho um Volkswagen e não estou de todo comprador porque os tempos são de crise, respondo ainda assim que sim, sempre. Porque há reencontros que sabem a casa.

Jorge Reis – jornalista desde 1988, numa carreira iniciada aos 22 anos na Agência Lusa depois de uma primeira aventura no mundo da rádio quando descobriu a magia da comunicação, então na Rádio Mais, passou por diversos jornais desde o Correio da Manhã, a revista Golo, ainda O Jogo, 24horas, onde editou o suplemento 24Rodas, colaborando depois na revista Motor24, tendo passado também pelo Diário de Notícias antes de avançar para a informação online com a LusoSaber que fundou, dirige, e onde está até hoje desde 2000. Acredita que é possível navegar contra a maré negativa que atravessa o jornalismo e insiste em querer ser livre e caminhar nas ruas enquanto português e cidadão do Mundo, ao volante ou enquanto peão, mas sempre de cabeça levantada.








