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Salão Automóvel de Pequim 2026: A confirmação de que o futuro já chegou e é chinês

Dois anos volvidos sobre a edição do Salão Automóvel de Pequim que muitos apelidaram de “ponto de viragem”, em 2024, o certame regressou este ano para não deixar margem para dúvidas: a indústria automóvel mundial tem, a partir de agora, um novo centro de gravidade. Se em 2024 o mundo veio espreitar a revolução, em 2026 a revolução já não é uma promessa — é uma realidade consolidada, de tal forma entranhada no ADN do certame que a pergunta já não é “se” a China lidera, mas “até onde” essa liderança pode chegar.

Realizado entre 24 de abril e 3 de maio, o Salão Automóvel de Pequim 2026, naquela que foi a sua 19.ª edição, entrou para a história não apenas pelo seu tamanho, mas pela profundidade da sua afirmação tecnológica. Com uma área de exposição de 38 mil metros quadrados, a maior de sempre, o certame ocupou dois centros de convenções em simultâneo e recebeu perto de um milhão de visitantes. Os números são avassaladores: 1.451 veículos expostos, 181 estreias mundiais e 71 carros-conceito — números que ultrapassam largamente as edições anteriores e consolidam Pequim como o maior salão do planeta.

Mas mais do que as estatísticas, o que ficou gravado na memória de quem percorreu os corredores imensos do certame foi a sensação inequívoca de que a China já não corre atrás de ninguém nem de nenhum mercado em particular, mas antes dita o ritmo, impõe as tendências e, cada vez mais, escreve as regras do jogo automóvel global.

Do “made in China” ao “created in China”

A primeira constatação, óbvia para qualquer observador, é o lugar central ocupado pelas marcas chinesas. Já não se trata de um punhado de expositores num canto do pavilhão; as marcas domésticas ocupam agora os lugares de destaque, com stands imponentes e, mais importante, com produtos que rivalizam ou ultrapassam a concorrência estrangeira em praticamente todos os segmentos.

A BYD continua a ser o gigante incontornável. A marca apresentou-se com uma estratégia de “ocupação total”, exibindo as suas submarcas Denza, Fang Cheng Bao (Equation Leopard) e Yangwang num espaço próprio que mais parecia um pavilhão dedicado. O grande destaque foi o Denza Z, um superdesportivo elétrico com uma impressionante potência de 1000 cavalos e aceleração dos 0 aos 100 km/h em cerca de 2 segundos, um verdadeiro tiro de canhão dirigido ao coração de marcas como a Ferrari, Lamborghini ou McLaren. Disponível nas versões cupê e descapotável, o Denza Z representa a ambição chinesa de conquistar também o segmento dos superdesportivos, tradicionalmente dominado pela engenharia italiana e alemã.

A par da BYD, a Xiaomi voltou a ser um dos grandes centros de atenção. Depois do sucesso do sedã SU7, a marca de tecnologia apresentou o Vision GT, um conceito de superdesportivo desenvolvido em parceria com o famoso jogo de corridas Gran Turismo, e prepara agora o lançamento do YU7 GT, uma versão de alta performance do seu SUV, com mais de 1000 cavalos e velocidade máxima de 300 km/h.

A escalada chinesa em direção ao segmento premium ficou ainda mais evidente com a apresentação de uma “série 9” de modelos de topo: Ideal L9 Livis, Nio ES9, Xiaopeng GX — todos eles SUVs de grandes dimensões, com tecnologias de topo e argumentos de luxo que rivalizam diretamente com as propostas alemãs. A Geely, através da sua marca Zeekr, apresentou a 007 GT, uma “shooting brake” elétrica com mais de 800 km de autonomia que promete chegar brevemente ao mercado europeu, incluindo ao Reino Unido.

A resposta europeia: aprender,
correr e, acima de tudo, adaptar-se

Se há dois anos as marcas europeias assistiam com alguma perplexidade à ascensão chinesa, em 2026 o tom mudou radicalmente. A perceção é clara: sem adaptação radical, não há sobrevivência na China.

A Volkswagen liderou esta investida com uma estratégia de “rendição inteligente”. O grupo alemão apresentou o conceito ID. CODE e anunciou que lançará mais de 20 modelos elétricos inteligentes ainda em 2026, com planos para chegar a cerca de 50 até 2030. Mais relevante do que os números é a mudança de abordagem: a Volkswagen reduziu o ciclo de desenvolvimento de novos modelos para cerca de 24 meses através da sua joint-venture em Anhui, utilizando a arquitetura CEA desenvolvida em parceria com a XPeng e a Horizon Robotics. Como afirmou o CEO da Volkswagen China, Oliver Blume: “a China é o nosso ginásio para ficarmos mais fortes”.

A BMW e a Mercedes-Benz também mostraram que estão a levar a sério a concorrência chinesa. A BMW apresentou as versões de distância entre eixos longa dos novos iX3 e i3, um claro reconhecimento da preferência do mercado chinês por espaços interiores generosos. A marca alemã destaca que 70% do código-fonte do seu novo sistema operativo foi desenvolvido na China, adaptado às preferências locais.

Já a Mercedes exibiu quase 40 modelos, incluindo a estreia mundial do GLC puramente elétrico, e o aguardado Classe S redesenhado, numa demonstração de que o luxo alemão não vai desistir do seu lugar de destaque.

No entanto, a leitura crítica que se impõe é que estes modelos, apesar da excelência em engenharia tradicional, continuam a sentir alguma pressão no campo da inteligência artificial e da experiência digital quando comparados com os concorrentes locais. Como notou a imprensa especializada, “a batalha já não é entre cavalos-vapor, mas entre chips, ecrãs e algoritmos”.

As inovações que marcaram a diferença

Se há um conjunto de tecnologias que definiram o Salão de Pequim 2026, essas são a inteligência artificial, a condução autónoma e as baterias de nova geração. O certame mostrou que a China não está apenas a electrificar o parque automóvel; está a reinventar a relação entre o homem, a máquina e a estrada.

O grande anúncio tecnológico do salão foi o Huawei Qiankun ADS 5.0, o sistema de condução autónoma de quinta geração da gigante tecnológica chinesa. Este sistema permite a condução autónoma de Nível 3 em autoestrada em escala comercial, algo que ainda está em fase de testes na Europa e nos Estados Unidos. A novidade foi integrada num SUV de todo-o-terreno da Beijing Off-Road, equipado com um lidar no tejadilho e múltiplos sensores, mostrando que até os veículos mais “rústicos” estão a ser digitalizados.

Esta aposta na automação de alto nível foi acompanhada por uma tendência paralela: a robotização da mobilidade. Marcas como a XPeng apresentaram não apenas carros, mas também robôs humanoides e carros voadores, num exercício de visionismo que mostra a ambição das empresas chinesas de dominarem todo o ecossistema da mobilidade do futuro.

A “revolução silenciosa” das baterias
e a IA generativa na “sala de estar” digital

Se a autonomia era uma preocupação, em Pequim 2026 deixou de o ser. A BYD apresentou a sua segunda geração da bateria Blade (lâmina), com uma tecnologia de carregamento ultra-rápido que promete carregar dos 0 aos 80% em apenas 5 minutos à temperatura ambiente, e em cerca de 9 minutos numa situação de frio extremo (-30°C) . A capacidade de suportar potências de carregamento superiores a 1 Megawatt (MW) coloca os veículos chineses num patamar de conveniência que rivaliza com o abastecimento de combustíveis fósseis.

Outro dos grandes diferenciadores foi a integração de modelos de linguagem de grande escala (IA generativa) nos sistemas de infoentretenimento. Os carros deixaram de ser meros veículos para se tornarem assistentes pessoais inteligentes, capazes de conversar naturalmente com os ocupantes, gerar conteúdos e antecipar necessidades. A Li Auto, por exemplo, apresentou sistemas onde o condutor pode interagir com um avatar virtual que controla não apenas a navegação, mas também a climatização, o entretenimento e até a realização de tarefas domésticas através da integração com a smart home.

Tendências: o que Pequim 2026
diz sobre o futuro global

Mais do que uma montra de novidades, o Salão de Pequim é um termómetro das tendências que vão moldar o mercado automóvel nos próximos anos. Várias conclusões se impõem:

  1. O SUV e o todo-o-terreno são rainhas: A procura por veículos com capacidade off-road, alavancada por um estilo de vida mais aventureiro e pela busca de utilidade, está a crescer exponencialmente. Marcas como a Great Wall (Tank) e a nova Hongqi Off-Road apresentaram modelos que combinam a robustez de um jipe com a tecnologia de um smartphone.
  2. O “software” vale mais do que o “hardware”: Os consumidores chineses valorizam cada vez mais a experiência digital, os ecrãs, a conectividade 5G e a inteligência de bordo. Os construtores que não investirem pesadamente nestas áreas ficarão para trás, independentemente da qualidade da sua engenharia tradicional.
  3. “Local para local” é a nova máxima: As marcas estrangeiras que tiveram sucesso foram aquelas que descentralizaram a sua investigação e desenvolvimento, criando centros de inovação na China para produzir “para a China” e, num segundo momento, “para o mundo”.

O mundo viajou até Pequim para aprender

O balanço do Salão Automóvel de Pequim 2026 é inequívoco. O certame consolidou a posição da China como principal pólo de inovação e desenvolvimento do mercado automóvel global. A China deixou de ser vista como a “fábrica do mundo” para ser percepcionada como o “laboratório do mundo”. Já não se trata de imitar ou de melhorar soluções existentes; trata-se de criar novas categorias, novas tecnologias e novas experiências que, num futuro próximo, serão exportadas para os mercados ocidentais.

Para os construtores europeus, a mensagem é clara. A humildade estratégica, a parceria tecnológica e a aceitação de que “o centro” já não está em Munique ou em Estugarda, mas sim em Shenzhen ou em Pequim, é um requisito para a sobrevivência. Como afirmou a presidente da associação alemã VDA, Hildegard Müller: “A China é simultaneamente parceira e concorrente”. E é nesse equilíbrio delicado que o futuro da indústria se vai decidir.

Para os visitantes do Salão de Pequim 2026, a sensação com que ficaram foi a de que estavam a assistir a uma mudança de era. A era em que os carros chineses eram sinónimo de baixo custo e baixa qualidade morreu. Em seu lugar, nasceu uma nova era, em que a inovação tecnológica, a inteligência artificial e a velocidade de execução chinesas estabelecem um novo padrão de excelência para o resto do mundo. E, deste lado, a única certeza é que o futuro, tal como foi apresentado em Pequim, já chegou.

Jorge Reis / LusoMotores

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