A Haas confirmou esta quinta-feira aquilo que já se suspeitava há algumas semanas: Rafael Câmara será piloto da equipa norte-americana a partir de 2027. O anúncio foi feito pela própria escuderia e pela Ferrari, que tutela a carreira do brasileiro desde 2022, pelo que passarão a ser dois os pilotos brasileiros a integrar a grelha da Fórmula 1 já em 2027. Câmara assina um contrato de vários anos e ocupará o lugar deixado por Esteban Ocon, que sai no final desta temporada.
Para o Brasil, o significado é imediato: a partir de 2027, o país volta a ter dois pilotos titulares na Fórmula 1, algo que não acontecia desde 2016, quando Felipe Massa e Felipe Nasr dividiam em brasileiro a luta pelos lugares na grelha. Gabriel Bortoleto, compatriota de Câmara, já está integrado na Audi e continuará a ser o outro representante brasileiro na categoria máxima do automobilismo.
Quem é Rafael Câmara
Nascido no Recife em 2005, Rafael Câmara tem 21 anos e uma carreira construída com paciência e resultados consistentes. Começou no karting em 2011, ainda no Brasil, e foi subindo degraus até chamar a atenção da Ferrari no final de 2021. A Scuderia recrutou-o após uma avaliação em Maranello que incluiu testes físicos, simulador e voltas em monolugares de Fórmula 4.
A entrada na academia da Ferrari, porém, não foi um atalho. Câmara fez o percurso clássico: Fórmula 4, Fórmula Regional, Fórmula 3 e, agora, Fórmula 2. E em cada um desses passos deixou marca. Em 2024, conquistou o título da Fórmula Regional Europeia com a Prema Racing, um campeonato onde a consistência pesa tanto quanto a velocidade pura. No ano seguinte, estreou-se na Fórmula 3 com a Trident e fez algo raro: ganhou o título logo no primeiro ano. Foram cinco poles e quatro vitórias em corridas principais, números que igualaram o recorde de maior percentagem de vitórias numa temporada da F3.
Agora, em 2026, está na Fórmula 2 com a Invicta Racing — a mesma equipa por onde passou Bortoleto — e lidera o campeonato a duas rondas do fim. Tem três vitórias e cinco poles, e uma vantagem de sete pontos sobre o búlgaro Nikola Tsolov.

O que a Haas viu nele
A contratação não foi um acaso. A Haas é cliente da Ferrari em termos de motores e tem acesso privilegiado aos pilotos da academia de Maranello. Oliver Bearman, que já está na equipa, seguiu exatamente o mesmo caminho.
Mas o que selou a decisão foi um teste. Em agosto, a Haas levou Câmara a Portimão, no Algarve, para um programa de Testes com Carros Anteriores (TPC, na sigla inglesa). O brasileiro pilotou o VF-25, o monolugar da época passada, e deixou o chefe de equipa Ayao Komatsu com poucas dúvidas.
“Ele mostrou que conseguia lidar muito bem com o carro, mesmo sem muito tempo para se familiarizar. Mostrou-nos mais do que apenas velocidade bruta. As voltas que completou foram especiais”, disse Komatsu após o anúncio. Por seu turno, Gene Haas, dono da equipa, foi ainda mais direto: “Rafa impressionou-nos com o seu desempenho no TPC. Estamos ansiosos por continuar esse trabalho a tempo inteiro na próxima temporada”.
Havia outros candidatos. Leonardo Fornaroli, campeão da F2 em 2025, e Jack Doohan, com experiência na Alpine, estavam na lista, mas Câmara ganhou a luta pelo lugar. Komatsu fez questão de desmentir que tenha havido pressão da Ferrari para a escolha: “Nós mesmos escolhemos os pilotos, exclusivamente eu e o senhor Gene Haas”.

O que se espera dele
Câmara chega à F1 com um perfil que a Haas conhece bem. Bearman, seu futuro companheiro de equipa, também veio da academia da Ferrari e também se estreou na Haas como rookie. A equipa aposta claramente num modelo: contratar jovens com preparação sólida e dar-lhes espaço para crescer.
Para Câmara, os objetivos são claros. Primeiro, terminar o trabalho na F2. Se conquistar o título, junta-se a um grupo restrito de pilotos que ganharam F3 e F2 em anos consecutivos — nomes como Charles Leclerc, George Russell, Oscar Piastri e o próprio Bortoleto.
Depois, preparar 2027. “Haverá muito que aprender. Estou ansioso por trabalhar de perto com a equipa, entender o carro e continuar a desenvolver-me como piloto”, disse o próprio Câmara no comunicado oficial.
A Haas, por seu lado, não esconde a ambição. Gene Haas falou num “impacto imediato” possível, algo que já aconteceu com Bearman. Komatsu foi mais contido, mas igualmente entusiasmado: “Estamos comprometidos em nutrir este talento e criar um ambiente onde ele possa florescer”.
O Brasil, que há uma década esperava por uma nova geração na F1, ganha agora um segundo nome no grid. E não por acaso: Câmara construiu o caminho com títulos, testes e consistência. A Haas abriu a porta. A partir de 2027, resta saber com que velocidade ele a atravessa.









