AUTODROMO NAZIONALE MONZA, ITALY - SEPTEMBER 01: Lando Norris, McLaren MCL38, leads Oscar Piastri, McLaren MCL38, George Russell, Mercedes F1 W15, Charles Leclerc, Ferrari SF-24, Carlos Sainz, Ferrari SF-24, Sir Lewis Hamilton, Mercedes F1 W15, and the rest of the field through the first chicane during the Italian GP at Autodromo Nazionale Monza on Sunday September 01, 2024 in Monza, Italy. (Photo by Zak Mauger / LAT Images)

Fórmula 1 regressa a África com Grande Prémio no Ruanda

A Fórmula 1 vai voltar a correr em África. Depois de mais de três décadas de ausência, a categoria máxima do automobilismo mundial confirmou um acordo de dez anos com o Ruanda para a realização do Grande Prémio de África, com estreia prevista para o início da década de 2030.

A última vez que a F1 competiu no continente africano foi em 1993, no circuito de Kyalami, na África do Sul, numa corrida vencida por Alain Prost. Desde então, África permaneceu como o único continente habitado ausente do calendário, uma lacuna que a própria organização reconhecia como difícil de justificar. Agora, o anúncio do regresso ao continente africano por parte da F1 foi feito esta semana em Kigali, numa cerimónia que juntou o presidente ruandês, Paul Kagame, o presidente da FIA, Mohammed Ben Sulayem, e o CEO da Fórmula 1, Stefano Domenicali.

Onde vai ser e como vai ser

A corrida vai disputar-se num circuito construído de raiz em Bugesera, cerca de 40 quilómetros a sul da capital, Kigali, junto ao novo aeroporto internacional que está a ser desenvolvido naquela região.

O traçado está a ser desenhado pela WurzDesign, a empresa do antigo piloto Alexander Wurz, e tem como objetivo aproveitar as variações naturais de elevação do terreno para criar uma pista com carácter próprio. A inspiração assumida vem de circuitos clássicos como Spa-Francorchamps e Suzuka.

O projeto tem cerca de 6 quilómetros de extensão e 17 curvas, com um desnível que ronda os 200 metros ao longo de uma volta. Quando estiver concluído, espera-se que cumpra os requisitos de Grau 1 da FIA, o nível exigido para receber um Grande Prémio.

Porquê o Ruanda

Durante anos, a África do Sul foi apontada como o destino mais provável para o regresso da F1 a África. Kyalami chegou a ser mencionado repetidamente, mas o circuito já não cumpre os padrões exigidos e os projetos sul-africanos nunca se materializaram numa candidatura única e consistente.

O Ruanda apresentou uma proposta diferente: um plano estruturado, com apoio governamental claro e financiamento assegurado, integrado numa estratégia mais ampla de desenvolvimento que inclui o novo aeroporto, zonas residenciais, hotéis e um centro de inovação.

O país tem investido de forma deliberada na projeção internacional através do desporto. Recebeu os Mundiais de ciclismo de estrada em 2025, acolheu o Congresso da FIFA em 2023 e é um dos polos da Liga Africana de Basquetebol. A própria gala de entrega de prémios da FIA de 2024 foi realizada em Kigali.

Há, no entanto, quem veja nesta estratégia uma operação de sportswashing — a utilização de eventos desportivos para desviar atenções de questões relacionadas com direitos humanos. Organizações como a Amnistia Internacional têm criticado a abordagem ruandesa, acusação que as autoridades do país rejeitam.

O que isto significa para a F1

Para a Fórmula 1, o acordo representa a conclusão de um objetivo que a Liberty Media perseguia desde que assumiu o controlo da categoria, em 2017. Com o Ruanda no calendário, a F1 passará a estar presente em todos os continentes habitados.

A relevância do mercado africano é evidente: estima-se que existam mais de 100 milhões de adeptos da modalidade no continente, com quase 60% deles com menos de 35 anos nos principais mercados da África subsaariana.

Lewis Hamilton foi uma das vozes mais persistentes nesta matéria. O heptacampeão mundial defendeu publicamente, durante anos, a necessidade de a F1 correr em África, e chegou a revelar que trabalhava nos bastidores para que isso acontecesse. “Porque é que não estamos em África? Há um Grande Prémio em todos os outros continentes”, questionou.

Um calendário em transformação

A confirmar-se o cenário atual, o Grande Prémio de África juntar-se-á a um calendário que tem vindo a diversificar-se. A F1 corre atualmente em 24 fins de semana por temporada, distribuídos por Europa, Ásia, América do Norte, América do Sul e Oceania.

A instabilidade no Médio Oriente tem, entretanto, obrigado a organização a repensar prioridades. As corridas no Bahrein e na Arábia Saudita foram canceladas em 2026 devido ao conflito na região, e a F1 tem estudado alternativas que incluem circuitos como Sepang, na Malásia, ou Istambul, na Turquia.

Neste contexto, a aposta no Ruanda não é apenas simbólica. É também uma decisão estratégica de longo prazo, que aponta para uma Fórmula 1 cada vez menos dependente de um número restrito de regiões e mais espalhada pelo mundo.

Stefano Domenicali resumiu a ambição por trás do acordo: “Com o Ruanda a juntar-se ao calendário, o nosso desporto vai correr em todos os continentes habitados. Isto é muito mais do que receber um Grande Prémio”.

A primeira corrida ainda não tem data definida, mas tudo aponta para que aconteça antes de 2035. Até lá, o Ruanda terá de construir o circuito, obter a certificação da FIA e preparar toda a infraestrutura necessária. O país parece determinado a fazer história — e a Fórmula 1, ao voltar a África, dá um passo que muitos consideravam há muito devido.

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