O mês de Junho de 2026 assinalou a ligação de 100 anos da marca com as 24 Horas de Le Mans, a mais emblemática prova de resistência do automobilismo mundial, na qual a primeira vitória teve a contribuição portuguesa de Carlos Barros.
Fundada em 1896 pelo engenheiro Armand Peugeot, a empresa, que já desenvolvia bicicletas e triciclos motorizados, apostou na fabricação de automóveis, produzindo em 1889 o Peugeot Type 1. Anos depois, a partir da década de 1920, a Peugeot iniciou a sua participação nas hoje míticas 24 Horas de Le Mans.
1926 – 1937
Alcançando excelentes resultados em diversas corridas disputadas na Europa, com sucesso até nos chamados Grandes Prémios, vendo as suas viaturas e pilotos reconhecidos no chamado novo mundo da velocidade, a Peugeot acelerou em 1926 para a prova que lhe faltava: as 24 Horas de Le Mans.
Na quarta edição da prova, a Peugeot estreou-se em Le Mans com duas unidades do 174 Sport, um para a dupla Louis Wagner e Christian Dauvergne e outro para André Boillot e Louis Rigal. Tratava-se do modelo mais luxuoso da marca na época, dotado de um sofisticado motor de quatro cilindros em linha e 3,8 litros, desenvolvido pelos engenheiros Artault e Louis Dufresne, bloco com cerca de 90 cv e bastante veloz para a época, superando a marca de 110 km/h.
Facto rocambolesco ocorreu com o 174 S de Boillot/Rigal que ocupava o 2.º lugar a meio da prova (na 82.ª volta) e foi eliminado, devido a um pilar do para-brisas partido. Isto porque o regulamento da altura estipulava que o automóvel tinha de estar “estritamente em conformidade com a descrição do catálogo comercial” e em perfeito estado de funcionamento em todos os momentos. Após este contratempo, e pelo facto de o outro 174 S também ter abandonado, com problemas no motor de arranque, a Peugeot decidiu abandonar o traçado de Le Mans por algum tempo.





Os Darl’Mat
Em vésperas da Segunda Guerra Mundial, cada vez mais fabricantes automóveis estavam envolvidos nas 24 Horas de Le Mans, uma corrida cada vez mais popular e valorizada pela Europa. A PEUGEOT não tinha planos de colocar carros oficiais na prova, mas teve uma forte presença pelas mãos de um dos seus concessionários parisienses, a Emile Darl’mat.
O regresso da marca à prova, por essa via, aconteceria em 1937, através de três 302 DS (Darl’mat Sport), também conhecidos como 302 Special Sport. Estes roadsters foram o resultado de uma colaboração entre o fabricante e o seu representante, automóveis que viriam a terminar a prova nos 7.º, 8.º e 10.º lugares. Um excelente desempenho, especialmente se considerarmos que 65% das equipas inscritas acabaram por desistir.
Após este início muito promissor, no ano seguinte foram inscritos três 402 Special Sports, com a unidade de Charles de Cortanze e Marcel Contet a terminar no 5.º lugar da geral e primeiro na categoria de 2 litros.
Devido, entre outras razões, à guerra que, entretanto, estalava na Europa seria preciso esperar até meados dos anos 60 para assistir ao regresso oficial da marca francesa ao traçado de Le Mans, ainda que nos anos 50, o francês Alexandis Constantin se inscrevesse como uma equipa independente em quatro anos consecutivos (1952-1955) com um Peugeot 203C, um produto seu equipado com o motor da marca francesa.


Anos 60 e seguintes
Mais de uma década depois do último carro diretamente relacionado com a Peugeot participar em Le Mans, surgiu em 1966 e também em 1967 a equipa de Charles Deutsch, através dos CD SP66 com motores Peugeot de 1,1 litros, original do modelo 204.
Associando o reduzido arrasto aerodinâmico da carroçaria desenhada por Daniel Pasquini com a potência do motor, na ordem dos 115 cv, o SP66 atingia uns incríveis 250 km/h na reta de Mulsanne, mostrando-se competitivo, em especial na categoria de motores de pequena cilindrada. Dois carros foram inscritos em ambas as edições, mas nenhum deles terminaria a corrida.




Anos 90 e Carlos Barros
Na década de 90 nasce o projeto do Peugeot 905, iniciado em 1988 e comandado por Jean Todt, então diretor técnico de Competições da então denominada Peugeot Talbot Sport, que criou, juntamente com a empresa francesa Dassault, especializada em projetos e construção de aeronaves, um chassis de materiais compósitos, em fibra de carbono, com uma sofisticada aerodinâmica. A equipá-lo estava um motor V10 de 3,5 litros, com uma inclinação de 80° e projetado para ser o mais otimizado possível, gerando cerca de 660 cv muito perto das 13.000 rpm, para um conjunto cujo peso rondava os 780 kg.
O 905 era superior aos seus concorrentes da altura, dotados de motores aspirados, mas também perdia pouco para os motores turbo do início da década de 90. Embora a edição de 1991 das 24 Horas de Le Mans tenha sido uma experiência de aprendizagem, com os dois 905 a não conseguirem terminar a prova, já o ano de 1992 terminaria em sucesso absoluto, com o 905 Evo 1 Bis, com nova aerodinâmica, suspensão e melhorias na transmissão e motor com mais de 750 cv a terminar a prova no 1.º lugar com Warwick/Dalmas/ Blundell, levando o segundo carro até ao 3.º posto, com o trio Baldi/Alliot/Jabouille.
A primeira vitória da Peugeot em Le Mans teve um contributo importante do português Carlos Barros, que à época assumia as funções de responsável máximo pelo 905. Recorda hoje que “em paralelo com a participação no Paris-Dakar no final da década de 1980, começámos a trabalhar no desenvolvimento do 905. O motor foi desenvolvido de acordo com um novo regulamento, um V10 atmosférico de 3.5 litros de cilindrada que, curiosamente, no final do projeto, em 1993, foi utilizado nos Fórmula 1 da McLaren e da Jordan. Na época de 1990, a primeira em que participámos, fizemos apenas as duas últimas provas, Canadá e México. No ano seguinte já fizemos todas as provas do calendário, fizemos um bom arranque de época, mas não fomos campeões. Mas em 1992 conquistámos o título e vencemos as 24 Horas de Le Mans com uma equipa composta pelos pilotos Yannick Dalmas, Derek Warwick e Mark Blundell. Em 1993, a PEUGEOT venceu novamente a prova e conseguiu o feito extraordinário de colocar três carros no pódio.”
De 2007 a 2011
A Peugeot regressaria oficialmente a Le Mans em 2007, através do 908 HDi FAP Diesel, em desenvolvimento desde 2005, novo projeto feito a partir de uma folha em branco em que se destacava um cockpit de compósito de fibra de carbono fechado, para aproveitar melhor a aerodinâmica e também as restrições técnicas do motor, diferentes entre os projetos abertos e fechados.
A equipá-lo um motor V12 Peugeot bi-turbo de 5,5 litros, em V com uma inclinação de 100°, baixando o centro de gravidade. A tecnologia de injeção direta de combustível e o filtro de partículas diesel eram fundamentais.
Em termos competitivos, o 908 HDi FAP Diesel mostrava-se rápido quer nos treinos, quer mesmo nas corridas, mas a fiabilidade prejudicava os resultados. Seria em 2009 que a Peugeot superaria essas dificuldades iniciais do projeto, garantindo uma dobradinha em Le Mans com os trios Brabham/Gené/Wurz e Montagny/Bourdais/Sarrazin, respetivamente 1.ºs e 2.ºs classificados.



2023: regresso a Le Mans
O projeto 9X8 assinalou o regresso da Peugeot a Le Mans em 2023, doze anos após a última participação da marca. Na estreia, o 9X8 n.º 94 de Menezes/Duval/Müller chegou a liderar durante várias horas, mas ambos os carros enfrentaram problemas na segunda metade da corrida: o n.º 94 comprometido por um embate e um problema mecânico (foi 12.º na classe Hypercar), enquanto o n.º 93 de Di Resta/Jensen/Vergne terminou no 8.º lugar da geral. A corrida seguinte, nas 6 Horas de Monza, valeu o primeiro pódio da era 9X8 ao n.º 93.
Em 2024, a Peugeot apresentou uma versão profundamente renovada do 9X8, com 90% da carroçaria redesenhada, regressando a Le Mans com o n.º 94 de Vandoorne/Di Resta/Duval e o n.º 93 de Vergne/Jensen/Müller, completando ambos os carros as 24 horas sem problemas mecânicos, terminando-a no 11.º e 12.º lugares.
No ano seguinte, no que foi uma edição frustrante, a Peugeot voltou a alinhar com os dois carros, tendo o 9X8 n.º 94 (Duval/Jakobsen/Vandoorne) terminado no 12.º posto e estabelecido um recorde de distância na categoria Hypercar, com 384 voltas (5.232 km).
Na sua quarta participação consecutiva desde que regressou às corridas de resistência, o Team Peugeot TotalEnergies abordou a última edição em que celebrou o centenário da sua primeira participação. Apesar de não corresponder às expectativas da equipa, uma edição de Le Mans particularmente exigente ditou que os dois Peugeot 9X8 chegassem ao final, sem problemas técnicos.









